Traços d'Alma

Traços de alma, gotas de céu...

Monday, March 20, 2006

Timidez

"Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...

— mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...

— palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

— que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...

— e um dia me acabarei."


(Cecília Meireles)

Saturday, February 25, 2006

Canção

(...para ti)

"No desequilíbrio dos mares,
as proas giram sozinhas...
Numa das naves que afundaram
é que certamente tu vinhas.

Eu te esperei todos os séculos
sem desespero e sem desgosto,
e morri de infinitas mortes
guardando sempre o mesmo rosto.

Quando as ondas te carregaram
meus olhos, entre águas e areia,
cegaram como os das estátuas,
a tudo o que existe alheias.

Minhas mãos pararam sobre o ar
e endureceram junto ao vento,
e perderam a cor que tinham
e a lembrança do movimento.

E o sorriso que eu te levava
desprendeu-se e caiu de mim:
e só talvez ele ainda viva
dentro destas águas sem fim."


(Cecília Meireles)

Friday, September 09, 2005

Mar de Setembro

Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto,
Fremente de espumas.
Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves, só
alma e brancura.
Felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam,
exaltam o silêncio.
Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto,
puríssimo, doirado.

(Eugénio de Andrade)

Monday, July 11, 2005

Se eu fosse apenas...

Se eu fosse apenas uma rosa,
com que prazer me desfolhava,
já que a vida é tão dolorosa
e não te sei dizer mais nada!

Se eu fosse apenas água ou vento,
com que prazer me desfaria
como em teu próprio pensamento
vais desfazendo minha vida!

Perdoa-me causar-te a mágoa
desta humana, amarga demora!
- de se menos breve do que a água,
mais durável que o vento e a rosa...

(Cecília Meireles)

Monday, June 13, 2005

A Poesia

Sentimentos mil...
Que no âmago de um poeta desabrocha,
E do gesto sublime, singular de cada expressão,
Surge desvairada a emoção...
Da nostalgia,
Da alegria,
Da harmonia,
Das ressonâncias da vida... a poesia.

(Lúcia Maria Leite Sousa)

Monday, June 06, 2005

Serenata

Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.

Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.

(Cecília Meireles)

Sunday, June 05, 2005

Ousa!...

Don't be afraid of dying, be afraid of not having lived your life as you wanted. Dare to dream, our minds are more powerful than we know.